O essencial
O nome Baphomet aparece pela primeira vez num auto inquisitorial de 1307, arrancado sob tortura aos Cavaleiros Templários. A figura que a maioria das pessoas reconhece hoje — cabeça de bode, alada, sentada — foi desenhada em 1856 pelo ocultista francês Éliphas Lévi como síntese hermética, não como Satanás. O sigil do pentagrama invertido só veio depois (1969), através da Church of Satan, e a estátua do Satanic Temple pertence a uma organização totalmente diferente. Três histórias distintas, muitas vezes confundidas como uma só.
Procure por «significado de Baphomet» e a maior parte das páginas comprime sete séculos de história numa única frase: um demónio satânico com cabeça de bode adorado pelos Cavaleiros Templários. Nada disto resiste a uma leitura cuidadosa das fontes originais. O nome foi confessado sob tortura em 1307, desapareceu durante quase quinhentos anos e foi redesenhado por um padre francês defrocado que se horrorizaria de ver a sua imagem chamada Satanás. Eis a verdadeira cadeia, com as fontes originais por trás de cada passo.
O nome foi arrancado aos Templários em 1307
Na sexta-feira, 13 de outubro de 1307, os agentes do rei Filipe IV de França prenderam todos os Cavaleiros Templários que conseguiram encontrar no país. As acusações incluíam heresia, sodomia, cuspir sobre a cruz — e a adoração de um ídolo chamado «Baphomet». Essa grafia, neste contexto, é a primeira utilização documentada da palavra em qualquer fonte europeia.
As confissões vieram sob tortura. Os inquisidores descreveram o alegado ídolo de forma diferente de cada vez: uma cabeça barbuda, um gato, um crânio, uma figura de três rostos, uma cabeça mumificada chamada «Baphomet». Ao longo de centenas de transcrições de processos, sobrevivem doze descrições físicas distintas. Nenhum par de prisioneiros deu o mesmo relato. Quando a tortura cessava, a maioria retratava-se inteiramente.
A filologia moderna concorda em larga medida que a palavra é uma deformação franco-medieval de «Mahomet» — a transcrição em francês antigo de Maomé. Os cristãos europeus dessa época supunham que o Islão era idolatria (não é), e os Templários tinham passado dois séculos na Terra Santa. Chamar-lhes adoradores de Maomé encaixava perfeitamente na acusação de heresia. O papa Clemente V dissolveu a ordem em 1312. O grão-mestre Jacques de Molay foi queimado na fogueira em 1314. A acusação do «Baphomet templário» cumpriu o seu fim político — Filipe IV anulou as suas dívidas para com a ordem — e depois caiu no esquecimento público.
⚠️ Um mito comum: Nenhum documento templário sobrevivente, nenhum juramento, nenhum registo ritual ou testemunho de membro fora da Inquisição menciona «Baphomet». A palavra existe apenas dentro das confissões forçadas e da acusação construída sobre elas. Os historiadores do Arquivo Secreto do Vaticano confirmaram isto quando o Pergaminho de Chinon foi publicado em 2007 — o papa Clemente V tinha absolvido em privado os Templários sobreviventes de heresia logo em 1308.
Depois a palavra desapareceu durante quase 500 anos
Do final dos processos templários em 1314 até ao início do século XIX, «Baphomet» quase não aparece por escrito. Sobrevivem algumas referências dispersas — um poema de trovador provençal, um texto alquímico de 1605, ocasionais notas de antiquário — mas nenhuma teologia, nenhum culto, nenhuma devoção. Durante meio milénio a palavra esteve praticamente morta.
Regressou pelo fascínio romântico com as sociedades secretas e o saber esotérico perdido. Em 1818, o orientalista austríaco Joseph von Hammer-Purgstall publicou Mysterium Baphometis Revelatum, argumentando que os Templários tinham sido heréticos gnósticos cujo ídolo Baphomet representaria uma figura pagã de sophia (sabedoria). As suas provas eram fracas e outros estudiosos rejeitaram-nas. Mas o livro voltou a pôr o nome em circulação impressa e insinuou uma ideia vaga — Baphomet como figura de iniciação de uma qualquer sociedade secreta — nos círculos ocultistas do século XIX.
Éliphas Lévi desenhou a imagem moderna em 1856
Cada Baphomet cornudo, alado e sentado que já viu — incluindo o sigil e a estátua do Satanic Temple — remonta a um único desenho de um diácono católico francês defrocado que escrevia sob o pseudónimo Éliphas Lévi.
O nome real de Lévi era Alphonse-Louis Constant. Publicou Dogme et Rituel de la Haute Magie em dois volumes (1854 e 1856), e o segundo abria com o seu próprio frontispício — o esboço daquilo a que chamou «Baphomet de Mendes», também «Bode do Sabbat». Não é um diabo cristão. Lévi foi explícito quanto a isso. Via a figura como uma composição deliberada de opostos que, no pensamento hermético, se equilibram na verdade divina.
Leia os elementos que Lévi realmente desenhou. Cabeça de bode — a natureza animal reconciliada com a razão. Um braço levantado, outro baixado — o axioma hermético solve et coagula («dissolve e coagula»), escrito em latim sobre os braços. Caduceu a erguer-se do regaço — princípio gerador. Peito feminino e corpo masculino — o andrógino alquímico, plenitude dos contrários. Uma tocha entre os cornos — iluminação. Um hexagrama na fronte — intelecto divino a coroar a natureza inferior.
Nas palavras do próprio Lévi em Dogme et Rituel: «O pentagrama com duas pontas para cima representa Satanás como bode do Sabbat; com uma única ponta para cima, representa o Salvador.» Entendia a figura como diagrama pedagógico sobre a união da matéria e do espírito — não como objeto de culto. O Bode do Sabbat era um quadro escolar, não um altar.
O Sigil de Baphomet veio da Church of Satan em 1969
Anton LaVey fundou a Church of Satan em São Francisco em 1966. Três anos depois, a sua organização adotou aquela que viria a ser a marca ocultista mais fotografada do século XX — o Sigil de Baphomet: um pentagrama invertido com uma cabeça de bode no interior e as letras hebraicas de «Leviatã» a contornar o círculo exterior.
O Sigil é uma colagem, não uma criação original. O pentagrama virado para baixo com o rosto de bode inscrito provém de uma ilustração de 1897 do ocultista francês Stanislas de Guaita. As letras hebraicas que soletram «Leviatã» vêm de um livro de 1964 do autor francês Maurice Bessy, A Pictorial History of Magic and the Supernatural. LaVey combinou os dois, redesenhou-os num estilo gráfico limpo e registou o resultado como marca em 1983.
Distinção importante que a própria Church of Satan faz questão de sublinhar: o satanismo laveyano não é teísta. Não postula um diabo literal. Satanás é tratado como símbolo da individualidade humana, do prazer carnal e da rejeição da religião autonegadora. O Sigil funciona como logótipo dessa visão do mundo, não como ícone de culto. Concorde-se ou não com essa filosofia, é a posição pública da organização desde 1969.
Para contexto mais aprofundado sobre como as histórias simbólicas mais antigas são reescritas por movimentos posteriores, o nosso artigo sobre o ouroboros em seis culturas antigas segue um padrão semelhante de deslocação de sentido ao longo dos séculos.
O Satanic Temple é uma organização totalmente distinta
A estátua de bronze de Baphomet de 2,4 m que tem aparecido desde 2014 em protestos diante de capitólios estaduais dos EUA pertence ao Satanic Temple (TST), fundado em 2013 por Lucien Greaves e Malcolm Jarry. O TST é uma organização separada da Church of Satan, e ambas se têm criticado publicamente há anos. Confundir as duas é o erro mais frequente na cobertura noticiosa de qualquer uma delas.
O TST é não teísta, reconhecido federalmente como religião nos EUA desde 2019, e usa Baphomet sobretudo como alavanca jurídica. O guião habitual: uma legislatura estadual coloca um monumento aos Dez Mandamentos no recinto do capitólio; o TST candidata-se a colocar a sua estátua de Baphomet ao lado; o parlamento aceita ambos (raro) ou retira o original ao abrigo da Primeira Emenda (mais comum). Detroit em 2014, Oklahoma em 2015, Arkansas em 2018 e Flórida em 2024 seguiram todas este padrão.
💡 Referência rápida: Três organizações diferentes, três utilizações diferentes. Cavaleiros Templários (séc. XII–XIV): nunca usaram a palavra; a acusação foi fabricada sob tortura. Church of Satan (1966–presente): o Sigil é um logótipo de uma filosofia simbólica e não teísta. Satanic Temple (2013–presente): a estátua é um instrumento de protesto constitucional. Nenhum deles, Templários incluídos, alguma vez adorou um real demónio com cabeça de bode.
O que significa hoje quem o usa
Entre os nossos clientes, quase ninguém que compra um anel ou pendente de demónio cornudo se identifica com qualquer das duas organizações satânicas. Os motivos lêem-se mais perto do que as gárgulas evocam numa catedral gótica: confronto com o lado sombrio da experiência humana, exibido para fora para que não trabalhe invisível por dentro. Um anel demónio com chifre de bisonte ou uma peça da mais ampla coleção de anéis com diabo tende a ser escolhido pelas mesmas razões que a joalharia de caveiras — memento mori, não malevolência.
Anel Devil Skull Wings — Prata sterling
Caveira cornuda com asas góticas — mais próxima em espírito de uma gárgula de catedral do que de qualquer sigil. Prata sterling, detalhes acabados à mão.
Se o que o atrai é a vertente templária, o nosso artigo sobre a história da cruz e do anel templários aborda quais eram os verdadeiros símbolos da ordem — o estandarte Beauceant, a cruz pátea, a espada e a coroa — em vez do ídolo fictício inventado para o processo. Para o quadro mais amplo da iconografia obscura na joalharia, o nosso artigo sobre por que os símbolos de diabos e demónios aparecem em anéis coloca lado a lado gárgulas, máscaras Oni e a imagem cristã do diabo.
Perguntas frequentes
Os Cavaleiros Templários adoravam realmente Baphomet?
Não. A acusação provém de confissões extraídas sob tortura durante a Inquisição de 1307 conduzida pelo rei Filipe IV de França. Nenhum documento templário, nenhum juramento e nenhuma fonte independente menciona a palavra «Baphomet». A publicação do Pergaminho de Chinon em 2007 confirmou que o papa Clemente V absolveu em privado a ordem da heresia em 1308.
Baphomet é o mesmo que Satanás?
Historicamente não. Éliphas Lévi, que criou a imagem moderna em 1856, desenhou Baphomet como figura hermética pedagógica que representa a união dos contrários — animal e razão, masculino e feminino, luz e escuridão. A figura só se fundiu com o Satanás cristão depois de a Church of Satan adoptar o desenho de Lévi como Sigil de Baphomet em 1969.
O que simboliza o Sigil de Baphomet?
Um pentagrama invertido com cabeça de bode no interior e letras hebraicas que soletram «Leviatã». Para a Church of Satan representa a natureza carnal e a rejeição da religião autonegadora — usado como logótipo, não como ícone de culto. O desenho foi montado a partir do pentagrama-bode de Stanislas de Guaita de 1897 e das letras hebraicas de Maurice Bessy de 1964, e registado como marca em 1983.
A Church of Satan e o Satanic Temple são a mesma coisa?
Não. A Church of Satan foi fundada por Anton LaVey em 1966 e usa Baphomet como logótipo filosófico. O Satanic Temple foi fundado em 2013 por Lucien Greaves e Malcolm Jarry e usa a estátua de Baphomet sobretudo em acções judiciais ao abrigo da Primeira Emenda contra exibições religiosas patrocinadas pelo Estado. São organizações distintas que se têm criticado publicamente.
Três séculos de confissões forçadas, uma gravura do século XIX e um redesenho de logótipo de 1969 — é esta a cadeia real. Quem lhe vender uma versão mais simples está a saltar precisamente as partes que importam. Para peças dentro da tradição gótica e cornuda mais ampla, a coleção de anéis góticos é onde a maior parte destes desenhos vive.
